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segunda-feira, 13 de abril de 2015

Atualização sobre o repouso após a transferência embrionária

O repouso realizado após a transferência embrionária não altera a chance de gravidez nos ciclos de fertilização in-vitro (FIV), e pode até reduzir as chances de sucesso. (??) Esta foi a conclusão de um recente estudo científico publicado na revista Fertility Sterility, da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM).
Sempre houve muitas dúvidas dos casais que se submetem à FIV em relação ao repouso pós-transferência embrionária. Há um senso comum de que quanto mais prolongado o repouso melhor. Por isso, algumas mulheres chegam a ficar em repouso absoluto (deitadas) desde o momento da transferência até o dia do exame de gravidez.
Devemos ressaltar que esta conduta acima, apesar de muito utilizada, e inclusive indicada por profissionais da medicina reprodutiva, não encontra nenhum respaldo nas evidências científicas atuais. É o que confirmamos nesse post, publicado recentemente.
Porém, o interessante deste novo estudo, é que além de confirmar que o repouso não aumenta as chances de gravidez, traz evidências de que esta prática pode até ser deletéria aos resultados! Vamos então analisar os dados.
O ESTUDO
Este trabalho foi realizado na Espanha, no Instituto Valenciano de Infertilidade e na Universidade de Valência, pelo grupo do Dr. José Remohi. É uma equipe extremamente conceituada no mundo da medicina reprodutiva, com excelentes trabalhos clínicos e de pesquisa publicados.
Foi um estudo prospectivo e randomizado, envolvendo 240 pacientes que receberam transferência embrionária.Todas as pacientes realizaram FIV com doação ovular, e seus embriões foram transferidos em um ciclo com preparo endometrial. As transferências foram sempre realizadas por um mesmo médico da equipe. Desta maneira, vários fatores que poderiam influir nos resultados foram controlados.
As pacientes foram divididas em dois grupos de 120 mulheres. No grupo de controle, as pacientes foram orientadas a permanecer 10 minutos deitadas após a transferência embrionária, e após este período eram liberadas da clínica.
No outro grupo, as pacientes foram orientadas a levantar imediatamente após a transferência e retomar sua rotina normal.
RESULTADOS
A taxa de gravidez (beta-hcg positivo) foi maior nas pacientes sem repouso pós-transferência embrionária comparado àquelas que repousaram, 75% versus 69% respectivamente, e a taxa total de aborto menor, 18% versus 27% respectivamente, mas estes achados não alcançaram significância estatística.
Porém, dois achados foram importantes estatisticamente: o risco de aborto clínico (depois de detectado embrião) foi menor no grupo sem repouso após a transferência, 11% versus 24% respectivamente, e, mais importante ainda, a taxa de nascidos vivos (“bebê em casa”) foi maior no grupo sem repouso, 57% versus 42%.
CONCLUSÕES
Os autores concluem que o repouso após a transferência embrionária não tem efeito benéfico e podem até ter efeito deletério sobre as chances de gravidez.
DISCUSSÃO
Vários outros estudos científicos já foram realizados sobre este assunto. E analisando em conjunto, a grande maioria destes estudos confirma que o repouso pós-transferência em nada beneficia as chances de gravidez.
A ideia de que permanecendo deitada a paciente facilita a fixação do embrião no útero não encontra respaldo científico. Inclusive, a posição anatômica mais comum do útero é a anteversoflexão (“flexionado” para cima e para frente). Neste caso, a cavidade uterina fica em posição vertical quando a paciente está deitada, e em posição horizontal se a paciente está em pé. Portanto, seguindo à risca este raciocínio, seria realmente melhor ficar em pé logo após a transferência.
Outros dados também podem explicar os melhores resultados em pacientes que não fizeram repouso e retomaram vida normal. A subfertilidade é uma situação que traz extremo estresse psicológico ao casal, e a FIV é um tratamento que pela sua característica pode acentuar ainda mais este estresse. Além disso, o período de espera pós-transferência até a realização do exame de gravidez (beta-hcg) é, particularmente, um período de muita ansiedade. Um repouso muito exagerado e rígido pode acentuar mais ainda este quadro. Este estresse acentuado em alguns estudos tem sido correlacionado à diminuição das chances de gravidez.
Acredita-se que as pacientes que imediatamente retornam à sua rotina normal lidam melhor com estas sobrecargas psicológicas. O trabalho, o estudo, as atividades cotidianas, ajudam a “esquecer” um pouco a ansiedade do período. Desta maneira, a liberação imediata das pacientes pós-transferência ajudaria a deixá-las mais tranquilas, e até aumentar as chances de gravidez.
Certamente são necessários mais estudos para comprovar definitivamente os achados clínicos aqui descritos.Entretanto, a lição imediata que podemos absorver para nossa prática clínica é que se torna absolutamente desnecessário preocupar o casal, e particularmente a mulher, em relação ao repouso pós-transferência. Basta orientar que é indiferente em relação à chance de gravidez, e a decisão de ficar um pouco mais “quieta” nos dias seguintes deve ser uma decisão individual de cada mulher.

fonte: http://www.medicinareprodutiva.com.br

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